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Why I photograph in black and white

[ENGLISH] I was asked by the editor of PBMAG, a Brazilian magazine specialized in black and white photography, why I most of my photos are monochromatic. I then wrote the text below (in Portuguese).

[PORTUGUÊS] No texto abaixo, publicado na revista PBMAG, eu explico por que fotografo em preto e branco. 

Por que eu fotografo em preto e branco

Francisco Cribari
http://cribari.com.br

Eu faço primordialmente fotografia de rua e documental. Ocupo-me, assim, da vida como ela é, da vida como se desenrola cotidianamente, sem disfarçes ou vernizes. Esse é o tema que me encanta e que me move: o ser humano, seu comportamento e suas interações. Encanta-me o que é verdadeiro, o que tem lastro na complexa e nuançaca humanidade que nos habita e que nos define. Passada a camada de vernizes, de projeções pessoais e sociais, dos disfarces, dos habituais mecanismos de defesa e de nossa incessante busca por conformidade há nossa humanidade. Rica, contraditória, cravejada de nuances. É preciso, assim, atravessar uma camada de distrações para alcançar o essencial, o fundamental. De forma análoga, a fotografia contém algo essencial: conteúdo, composição e uso da luz disponível. Essa trindade é, para mim, a essência fotográfica, é o que costuma chamar "tutano fotográfico". É ela que me toca, que conversa comigo sem intérpretes ou inócuas adjetivações. Para alcançá-la, opto por abrir mão das camadas que nos separam. Em especial, abro mão daquilo que chamo de "verniz fotográfico", daquilo que constitui a camada mais imediata da imagem, daquilo que tem o poder de nos seduzir e dominar nossa atenção: as cores. Como sabemos, nosso cérebro se ocupa primeiramente do processamento de cores para só então processar formas. Nossa atenção imediata privilegia certas cores. Ela, mesmo que por instantes infinitesimais, mergulha em encantamentos proporcionados por matizes e saturações. Distanciamo-nos, assim, daquilo que releva, daquilo que para mim constitui o essencial, do diálogo sincero e direto travado pelo conteúdo, pela composição e pela luz. É esse o diálogo que me toca e que me move. Ele é meu destino e meu refúgio. Pouco interesse mantenho em prefácios, prelúdios, vernizes e encantamentos. Essa é a razão primordial por que o preto e branco domina minha fotografia.

Há, em caráter acessório, duas outras razões. A primeira envolve o uso da imaginação. Nada somos sem nossa capacidade de imaginar, de abstrair, de criar a partir de abstrações, de estabelecer associações, de unir o real ao imaginário. A fotografia em cores possui caráter literal na medida em que fornece uma descrição completa da cena. Pouco alimento deixa para nossa imaginação, para nossas reconstruções subjetivas, para o deleite de nossa imaginação. Em contraste, na fotografia monocromática nossa imaginação é convidada a revisitar a cena, a reconstruir as informações faltantes, a criar um diálogo entre o real e o imaginário. Como alguém já colocou -- e com propriedade --, apreciar uma fotografia colorida é como assistir a um filme ao passo que a apreciação de uma fotografia em preto e branco mantém relação com a leitura de um livro. Ao me deparar com essa analogia lembrei imediatamente do enorme e indescritível prazer que senti ao ler Anna Karenina, obra fundamental do escritor russo Liev Tolstói. Lembrei da forma como imaginei os traços físicos do conde Alexei Vronsky, de como imaginei os gestos de inquietude da protagonista da história, de como perambulei pelas indecisões da princesa Kitty e pelos conflitos existenciais de seu pretendente, Konstantin Levin. Que banquete para qualquer imaginação inquieta e fértil! Logo em seguida lembrei das versões do livro para a grande tela. Ali tudo me foi dado, tudo me foi entregue, tudo foi descrito, pouco foi deixado para minha imaginação. Só o livro me marcou, só nele realmente dialoguei com a história enquanto a degustava.

A segunda razão acessória pela qual o caráter monocromático domina minha fotografia reside na ânsia que mantenho em criar algo que seja separado da realidade, mesmo que parcialmente, em gerar algo que contenha entidade própria. Concordo, assim, com o fotógrafo norte-americano Aaron Siskind, que certa vez afirmou que ao produzir uma fotografia deseja que ela seja um objeto novo, completo e autocontido. A remoção da referência às cores, como notado pelo fotógrafo David Edelstein, contribui para que as fotografias se tornem objetos novos, fazendo-as ir além da mera descrição do mundo.

Em resumo, o preto e branco, em sua abstração, seduz nossa imaginação e não nossa atenção imediata. Oferta território fértil para o exercício de nossa imaginação, abre uma porta para um mundo novo, para um mundo em que realidade e irrealidade coexistem harmonicamente. O preto e banco nos conduz diretamente ao tutano fotográfico, aos elementos essenciais de uma fotografia. Distancia-se do mundo que retrata em alguma medida, buscando constituir objeto novo, uma entidade não escravizada pela realidade que lhe deu origem.

Link: http://pbmag.com.br/por-que-eu-fotografo-em-preto-e-branco/

 

It's all luck

[ENGLISH] "Of course it’s all luck." --Henri Cartier-Bresson / Never underestimate luck. I was in Brasília a few days ago and went for a walk with my camera. I stopped in front of Palácio do Planalto (the place where our president works) and waited for something interesting to happen. Suddenly a boy started to attract pigeons. He had some food in his hand. Aside from that, it seemed to me that the pigeons truly liked him. I walked towards him, stopped around a meter and half away from him, made two photos and then walked away without saying a word. This was the best of the two photos I made. There is a pigeon flying towards him in the lower right corner of the frame. It made the photo a whole lot more interesting. Was it luck? Did I click by reaction when I noticed the pigeon entering the frame? (I do not shoot in burst mode. It is always just a single click.) I have no idea. Anyway, luck is always welcome! 

[PORTUGUÊS] "Tudo é uma questão de sorte." --Henri Cartier Bresson / Nunca subestime a sorte. Eu estava em Brasília há alguns dias e saí para fazer algumas fotos de rua. Caminhei até a Praça dos Três Poderes. Fiquei um bom tempo lá esperando algo interessante acontecer. De repente, um garoto começou a brincar com os pombos que povoavam a praça e a os atrair com comida. Os pombos pareciam, comida à parte, genuinamente gostar do garoto. Eu me aproximei dele, fiz duas fotos e me afastei sem falar nada. Essa foi a melhor das duas fotos que fiz. Há um pombo entrando no quadro (canto inferior direito). Esse detalhe enriqueceu a imagem, pois tornou a história que eu buscava contar com a imagem mais rica. Foi sorte? Eu cliquei por reação quando notei a entrada do pombo no quadro? Não sei, não faço a menor ideia. Sei apenas que a sorte será sempre bem-vinda. 

Photo / Foto: Francisco Cribari 

Photo / Foto: Francisco Cribari